sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Ética

Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso?
Nem tudo que eu quero eu posso; nem tudo que eu posso eu devo; e nem tudo que eu devo eu quero. Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o que você pode e o que você deve.
Mario Sergio Cortella

Construção do cidadão

Veículo: Revista Viva São Paulo

Içami Tiba
Data: 01/06/2007
Cidade: São Paulo
Coluna: Pais & Filhos

 
A cidadania deve começar em casa já com os primeiros passos da criança

O planeta Terra está passando por um período muito delicado. Ele está precisando muito do espírito cidadão para ser cuidado e preservado.

Diz-se que a Terra precisa de seus habitantes, mas são os seus habitantes é que precisam dela, pois ela existe com ou sem eles. Basta que a temperatura básica global suba 5ºC para que muitas cidades em beiras de água (lagos, represas, rios, mares e oceanos) tenham perdas incalculáveis, levando-se em conta que são onde vive a maioria da população. Países como Holanda, cidades como Nova York, ilhas paradisíacas formadas por corais e blocos de gelo das calotas polares sofrerão incalculáveis perdas gerando talvez bilhões de migrantes do aquecimento global. 

Algumas pessoas pedem a diminuição da maioridade penal para combater a violência juvenil, acreditando que a impunidade é sua maior causa, enquanto outras pedem que se libere a maconha, já que se torna impossível o seu controle. Para terceiras, a cerveja passou a ser refrigerante. Cada vez mais ministros, governantes e outros políticos estão envolvidos em grandes crimes contra o País.

 
Onde está a cidadania? 

A família atual tem que incluir a cidadania na educação dos seus filhos. É a cidadania familiar praticada desde a infância. Os filhos, se tratados como príncipes quando crianças, tornam-se tiranos quando maiores. Mesmo sem competência querem fazer do ''seu jeito'' e acabam com qualquer herança em pouco tempo. O pior é que esperam que o mundo funcione como os seus pais, que lhe davam tudo e nada lhe cobravam. São as pessoas que exigem seus direitos, mas não cumprem os seus deveres. 

Uma criança tem que aprender que sua brincadeira acaba quando ela guarda os brinquedos de volta no lugar que antes estavam. Ela tem de aprender a cuidar dos seus brinquedos, do seu quarto, da sua casa. É dessa maneira que ela, no futuro, vai querer cuidar também da Terra em que vive. Quando os adultos guardam os brinquedos que ela deixou, acabam desenvolvendo nela que isso não é sua obrigação. Fica essa falha na sua formação. Ela não se interessa em deixar o mundo melhor do que quando o encontrou. O amor é muito importante, mas só ele é insuficiente para formar um cidadão. É preciso que seja complementado pela educação. Portanto, quem ama tem que também educar. Daí o título do meu livro: Quem ama, educa!

Nenhum filho pode ofender, gritar, maltratar sua própria mãe. Se a mãe aceita, não tem por que a criança respeitar outras pessoas em casa, e muito menos fora de casa. Juntando a irresponsabilidade material com a falta de respeito ao próximo, acabamos destruindo o mundo.

Portanto, na cidadania familiar a criança tem de começar a praticar em casa o que o cidadão vai ter que fazer no social, e ela não pode fazer em casa o que não poderá fazer na sociedade. 

Para um adulto, torna-se simples aceitar regras sociais, enfrentar filas, não jogar lixo no chão e não fazer desperdícios se ele aprender tudo isso já dentro de casa. 

A ignorância pode fazer com que uma pessoa varra sua casa jogando o lixo na rua, que beba água contaminada, mas ela pode aprender a ser cidadã. O pior é fazer o que sabe que é errado, mas fazer porque ''ninguém está olhando'', e vai ficar impune. 

Mas as conseqüências não tardam a chegar. O aquecimento global, a violência social, a corrupção e a ''lei do espertinho'' são resultados da ignorância e da falta de cidadania de algumas pessoas, mas são todos os habitantes da Terra que acabam pagando.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O professor competente

Para discutir a formação de docentes, é necessário combinar de antemão uma definição do que seja uma sala de aula competente. No imaginário brasileiro, a sala de aula competente é um lugar onde os alunos se reúnem regularmente para, sob a coordenação de professores, engajarem-se em atividades como copiar do quadro, ouvir passivamente uma preleção e treinar algoritmos para resolver problemas. Geralmente, os objetivos pedagógicos não são claramente compreendidos pelos alunos (às vezes nem pelos professores), o tempo é apenas parte do cenário (e não um componente do planejamento) e as atividades são propostas mesmo que não estejam diretamente relacionadas aos objetivos pedagógicos que deveriam estar conquistando. Até porque não existe um currículo detalhado e obrigatório a ser perseguido.
Por causa dessa percepção, é mais frequente que a sala de aula se pareça com uma missa, um comício, uma balada, uma sala de espera (ou de tortura), ou seja lá o lugar onde costumamos estar apenas de corpo presente do que com um local de trabalho mental conjunto e supervisionado, onde os alunos recebem desafios pedagógicos relacionados a objetivos muito claros, que os fazem usar a cabeça na maior parte do tempo e cujo processo de aquisição das habilidades e dos conteúdos é permanentemente monitorado. Chamemos esse tipo de sala de aula de “sala de trabalho”.
Uma vez claro que o papel dos professores é fazer com que os alunos exercitem seus cérebros para aprender, seguindo uma progressão de complexidade, como a proposta pela Taxonomia de Bloom, um segundo grupo de padrões comportamentais deve ser claramente compreendido por quem sonha em ser professor e, obviamente, por quem será responsável pela formação profissional deles. Assiduidade, pontualidade, cordialidade e apresentação pessoal são corriqueiramente negligenciados e ridicularizados por quem se pretende moderno, mas, sem que todos os membros de uma comunidade escolar se sujeitem a eles, não é possível institucionalizar a educação, uma escolha histórica das sociedades da era moderna.
Assiduidade é mais do que aparecer na escola todos os dias, é um compromisso moral com seus objetivos, seus pares e sua clientela. Pontualidade não é estar na porta da sala esbaforido em cima da hora, mas começar uma aula planejada no momento combinado e terminar idem. Cordialidade é tratar todos com a mesma atenção e com demonstrações explícitas de respeito, como olhar nos olhos, manter o tom de voz e o vocabulário afáveis, não se deixar levar por provocações dos alunos, não tomar como pessoal o que é um embate de gerações ou de grupos sociais diferentes, monitorar as dificuldades dos alunos e tratá-las de forma eficaz e acolhedora, mesmo que eles sejam “difíceis” ou “diferentes”. E apresentação pessoal não é apenas higiene, mas um conjunto de aparências e atitudes que transmite a mensagem de respeito próprio e à nobre tarefa de educar, com a neutralidade de um profissional que está na escola para servir a todos indiscriminadamente e que, portanto, não deve tornar óbvias questões de foro íntimo, como as esportivas, religiosas ou sexuais.
Ainda sem sair do básico negligenciado, lembro que o domínio da norma culta da língua portuguesa, no escrever e no falar, é característica inerente e essencial de docentes, que devem dar o exemplo e cobrar o mesmo de seus alunos. A conjugação errada do presente do subjuntivo, a flexão errada do verbo para o pronome em segunda pessoa e “comer” os “ss” no fim dos plurais não são regionalismos, mas sim erros de português e devem ser banidos do ambiente escolar. Isso não é “violência simbólica”, é um processo educativo responsável e equitativo.
Saindo do óbvio, valho-me de Schulman (Lee S. Shulman, Foundations of a New Reform. Harvard Educational Review, nº 57, vol.1, February, 1987) para listar o conjunto dos conhecimentos que os professores devem dominar para ter sucesso em seu ofício e sua missão: conhecimento do conteúdo; do manejo pedagógico da sala de aula; dos objetivos pedagógicos e de uma variedade de ferramentas, atividades e estratégias para alcançá-los; conhecimento pedagógico de como se aprende/ensina; do perfil de cada aluno; do contexto institucional (mantenedores, comunidade etc.) e dos fundamentos teóricos de sua área (filosofia, sociologia, psicologia). A ordem dos fatores importa e possivelmente a questão está, em parte, em termos invertido a importância de fundamentos teóricos em relação ao conhecimento do conteúdo, das formas de ensinar e do manejo de sala. Além de termos relaxado em relação às questões óbvias que valem para todos os profissionais que atuam em ambiente institucional.
O que Shulman propõe leva uma vida para se alcançar, mas pode ser usado como base para uma nova estrutura de formação inicial e continuada de docentes, bem como para a avaliação e a progressão funcional deles. Talvez seja essa a singela revolução educacional que buscamos.